- Vou pular!
- Não, não pule!
- E o que mais me resta fazer?
- Pense nos seus filhos, João e Margareth.
- Eu não tenho filhos.
- Mas poderá ter, pense neles.
- João e Margareth?
- São bonitos nomes.
- Eu tenho que pular, você viu que a gasolina subiu de novo?
- Ah, se for por isso mais da metade da população já teria pulado.
- Eles tem vontade também é?
- Não, não tem! Esqueça isso. Olhe para o mundo ao seu redor.
- Estou vendo um monte de prédios, muita poluição e... olha ali, um assalto a uma senhora, hã, é a velhinha que tá assaltando aquele homem?...
- Certo, certo. Não foi o melhor dos exemplos. Você tem uma mulher, pense nela.
- Aquela me trai direto.
- É uma safada mesmo, esqueça.
- O quê? Tá chamando minha mulher de safada?
- Não, não. Longe de mim dizer isso.
- Vou pular e nem você, Mateus, nem ninguém lá embaixo vai me impedir...o que? Aquilo ali embaixo é um carro funerário?... não importa, vocês não vão me impedir!
- Calos, desista disso.
- Tá vendo, até meu nome foi registrado errado por aquele escrivão analfabeto.
- A gente manda mudar o seu nome, pronto.
- Não, já me acostumei com ele.
- Vamos lá, com calma, a gente desce e tudo fica bem.
- Eu vou descer sim, mas de um modo mais rápido, vou pular. Vai pular eu e esse Twitter que eu encontrei aqui.
- Calos, solta esse pombo.
- Ontem a tarde no parque, no meio do caminho tinha uma pedra, eu não vi, tropecei e cai.
- Não, não chore. Acontece.
- O problema não foi esse, é que joguei a pedra longe e só depois fui perceber que era um cágado, eu acho que matei o bichinho!
- Não foi sua culpa. Me dê sua mão.
- Quer casar comigo é? Eu vou pular.
- Desça daí lentamente. Nada de movimentos bruscos.
- As pessoas são muito más. Tá vendo aquele senhor com um livro?
- Sim, ele está lendo o livro.
- Sei não, muito suspeito. Você conhece o conteúdo daquele livro? Claro que não.
- E o que é ?
- Também não sei, não dá para ver daqui, mas não deve ser coisa boa. Vou pular e é agora.
- Espera! Você vai pular desse prédio?
- Qual o problema?
- É um prédio comum e nem tem tantas pessoas lá embaixo para ver. Você postou no Facebook que ia pular hoje?
- Não, esqueci disso.
- Então, você pode escolher outro prédio, quem sabe algum histórico ou mais alto e ainda vai ter a chance de postar no Facebook.
- Faz sentido. Pensamento interessante. Quem sabe postar no Twitter também.
- Isso, isso.
- Vou escolher outro dia e local para me programar melhor. Me ajuda aqui que eu vou descer.
- Isso, vamos descer. Ufa, por pouco.
- O que você disse?
- Nada, nada, pensando alto.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Xadrez
Há muito tempo não escrevo por aqui, o meu trabalho final de curso é o motivo parcial.
Hoje me bateu uma vontade imensa de escrever, parecido com aquela vontade de tomar sorvete a meia-noite que de vez em quando temos.Talvez isso se deva ao escritor Rubem Alves, ele deve ser o culpado. Não conhecia seus textos, mas em meio a profusão de links do google, durante uma busca, me deparei com um texto desse escritor e fiquei encantado. Hoje li um texto dele sobre a prosa, onde fala que prosear é falar sem objetivo definido. A prosa não quer chegar a nenhum lugar, quer apenas acontecer. E citando Guimarães Rosa, me derrubou: “A coisa não está nem na partida nem na chegada, mas na travessia”. Depois que li isso veio a vontade de prosear. E para fazer parte dessa prosa chamo o antigo jogo de xadrez. Jogando essa semana percebi quão profundo e fascinante é esse jogo. O xadrez é uma conversa entre duas mentes, sendo cada jogada uma frase onde o outro, se entender, responde de acordo, ou senão “fala algo desconexo”. Tudo isso pelo movimento de peças. É um tipo de linguagem de sinais, onde quanto mais se entende mais se prediz o outro. Sempre vi esse jogo como algo monótono porque muitas vezes jogava com os olhos e não com o cérebro. Li em algum site que nunca mova uma peça de xadrez se não tiver um objetivo, cada movimento deve fazer parte de uma tática.
E, como tudo aquilo que fascina tem seu mistério, não se sabe onde surgiu precisamente, uns falam que foi no Egito, outros na Índia, o certo é que muitas gerações se fascinaram com ele.Talvez isso aconteça por se permitir ver a mente do outro. Pois nele sua mente é publicada num mural, vista em funcionamento. E isso é raro, pois a mente humana é uma caixa preta. Olhando pra minha caixa preta, variáveis X,Y,Z, I,J entre outras surgem, não digo que isso é normal mas acredito que seja comum, não público, mas comum. Tentamos nos entender e entender os outros segundo uma percepção estática. Acredito que o entender deva ser encarado como no jogo de xadrez, onde cada atitude abre possibilidades para N outras e não apenas para uma.Vou terminando a travessia desse texto. Interessante essa tal de prosa, permite que a mente caminhe e que o apreço se volte para esse caminhar e não somente para o ponto de chegada. Espero que não tenha sido enfadonho, espero que tenha sido uma boa conversa.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Salvem o Terapeuta
-Bem, doutor, eu não sei mais o que pensar, estou muito confusa, meu emocional está muito abala...(choro)
-Calma, estamos aqui para tentar resolver essa questão, continue falando.
Continuou, agora mais calma.
-As pessoas dizem que gostam de mim, que sou o que elas querem...
-Não vejo isso como problema.
- Porém o que me confunde é que depois me xingam, querem que eu vá embora logo..(choro, abre a janela para pular, mas ver que está frio e a fecha)
- Calma, apenas continue falando. Me explique melhor.
- As pessoas dizem que me querem, que não veem a hora de eu chegar, que eu deveria permanecer por mais tempo.Nesse momento meu ego cresce, minha auto-estima se eleva... E quando chego, sou bem recebida, mas após algum tempo...
Rapidamente o terapeuta consegue retirar das mãos dela uma caneta com a qual ela insistia em tentar perfurar o olho.
- Mas após algum tempo, dizem que não estão me aproveitando bem ou então falam que estão ansiosos para que eu vá embora...
- Se sente mal com isso?
- Se eu me sinto mal?!Olhe minha cara de felicidade!Pareço estar mal...
Dessa vez ele é mais rápido e impede que ela acenda um isqueiro e tente se queimar.
- Muitas crianças são sinceras e dizem que não gostam de mim e pronto.Eu não entendo...(choro)
- Sua família lhe apoia nesses momentos?
- Ela é muito grande e todos estão ocupados o tempo todo, se transformam em vários para darem conta do trabalho.
- E você, não deveria estar trabalhando?
- Era, mas eu fugi, estou fugindo de tudo, estou fugindo da vida....
O terapeuta avança em cima dela e a faz cuspir todos os comprimidos que tentava ingerir de uma vez só.
- Eu não entendo o por que disso tudo!Qual o problema comigo?!
- Compreenda que as pessoas mudam de opinião rapidamente, nunca estão satisfeitas. Você, palavra Férias, geralmente é vivida uma vez por ano.Muitos não conseguem lidar com isso, ficam perdidos. A sua complexidade-simplista os intimida.Não sabem o que dizer, falando assim essas coisas.
A Palavra Férias pareceu se acalmar um pouco com essas palavras do terapeuta.Olhava para o teto, não sabia-se porém se era em reflexão ou por causa do ventilador que girava com suas hélices de metal.Por via das dúvidas o médico afastou a Palavra daquelas hélices.
- Vá para casa, reflita um pouco o que eu disse que na próxima consulta iremos nos aprofundar mais em cada questão.
- Está certo.- falou agora mais calma.
A Palavra sai do consultório em reflexão.O terapeuta fecha a porta num suspiro:
-Complexidade-simplista, de onde tirei isso?Vejo que preciso de umas férias...
sábado, 18 de junho de 2011
Alice
Assisti hoje o filme Alice e nele coisas fantásticas são ensinadas, não só ensinadas mas também lembradas.Coisas que sabíamos na infância mas que fomos obrigados a esquecer.No filme, Alice agora na adolescência retorna ao País das Maravilhas, porém acha que é um sonho e não se lembra bem da outra vez que esteve lá.Os seres do País se perguntam se essa é aquela Alice de tempos atrás .Ao ser peguntada se achava que essa era a Alice a lagarta azul diz que dificilmente é. Alice tinha perdido a sua determinação,sua essência.Me pergunto, quantos de nós perdemos a nossa essência,quanto eu perdi do Júnior Pires que era. Perdemos parte do que éramos na infância porque nos mostram o contrário.Perdemos principalmente a imaginação, levamos uma martelada da sociedade que nos diz:”a realidade é essa e nada foge disso”.O pai de Alice dizia pensar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã. Fala que o impossível só poderá se tornar possível se pensarmos que é.O impossível se mostra presente em todo o filme, gritando:”sou possível”.Pensar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã, interessante exercício diário, façamos o mesmo.O gato risonho, na história original (que ainda não li mas vou ler), fala à garota que todos são loucos:o chapeleiro, o coelho de março,ele e a própria Alice.E no filme, quando Alice se questiona ao pai se está ficando louca este afirma que sim, mas completa:”as melhores pessoas são”.Na minha opinião, as pessoas que perderam a sanidade mental o são porque possuem um excesso de imaginação e não sabem lidar com ela, porque estão presas a realidade.Que possamos ter esse excesso de imaginação, porém aceitá-lo e aumentá-lo.Sejamos loucos, somente. A partir de agora, pensemos no impossível todas as manhãs antes do café.Sim, isso é possível.
domingo, 5 de junho de 2011
Loucuras diárias
Manias, podemos falar de algumas.Talvez sobre dona Corinha,uma senhora que diz ficar com dor nos pés toda vez que assiste a novela das oito.Ela não sabe dizer o por que, mas toda vez que a novela acaba afirma que seus pés ficam imensamente doloridos.Será que a senhora não fica mexendo os pés durante a novela, perguntou certa vez seu neto.Não era isso, ela sabia.
Tem o caso de Seu Tambentino, que não suporta a palavra centelha.Quando alguém pronuncia essa palavra ele sente vontade de esganar a pessoa.Quer acabar com o dia de Seu Tambentino fale a palavra centelha.Ele também não sabe dizer o por que disso, desde a juventude que essa palavra muda seu humor.
E o curioso caso da menina laurinha, que em dias de chuva não lava as mãos.
Manias estranhas, mas quem não tem suas manias.Eu mesmo a um tempos atrás tinha que olhar em baixo do copo antes de beber algo, também não sei explicar o por quê.Passava algum tempo olhando embaixo do copo e só depois bebia.
Essas pequenas manias fazem parte da nossa singularidade.As pequenas loucuras de cada dia.Todos temos mas não as revelamos a ninguém por medo do ridículo. Na minha opinião, ridículo é não tê-las.Qual a sua?
terça-feira, 10 de maio de 2011
Atleta do Coletivo
Não há ninguém com maior vocação para atleta que o passageiro de ônibus coletivo. É algo que dificilmente ele pode fugir, está na sua essência. A primeira prova é a de cem metros até o ônibus, porque na maioria das vezes que se está chegando a parada o ônibus já está para sair ou saindo.É nesse momento que o nosso atleta se prepara e começa a corrida e com obstáculos, tem que se ter uma verdadeira capacidade de orientação para desviar das pessoas e alcançar o ônibus.Sem esquecer daqueles que entram na modalidade cem metros até o ônibus com obstáculos e carregamento de peso, pois as bolsas são acessórios recorrentes dos passageiros.
Chegando ao veículo começa a prova de equilíbrio, o atleta está subindo e o ônibus saindo. Tenta-se segurar em qualquer superfície mais próxima para manter-se em pé. Quem não se dá bem nessa prova acaba tendo sérias contusões.
Conseguindo passar dessa, inicia-se a prova de resistência. Há uma diversidade de odores desagradáveis no ar e a missão agora é resistir a todos eles durante o percurso.Não é fácil, a intensidades de odores faz alguns terem vontade de se defenestrarem do ônibus.
Aliado a isso existe a prova psicológica.O nosso atleta do coletivo já está com os nervos a flor da pele, por isso qualquer coisa é motivo para discussão: celular com som alto, cotovelada, espirro, janela aberta...deve-se ter muito cuidado a esta altura. A calma e a paciência são vantagens indispensáveis aqueles que estão dispostos a chegar ao destino vitoriosos.
Eis que se aproxima a parada de destino do nosso atleta.Recomenda-se que começe a se aproximar da saída, onde terá inicio a prova final. Nesse momento começa-se uma batalha para passar pelos que estão em pé e chegar a saída. Pisões no pé, cotoveladas, empurrões... é quase um vale-tudo. Aqueles que não conseguem chegar a tempo terão que descer em uma próxima parada, porém os que chegam a tempo saem vitoriosos desta olimpíada. Conscientes de que no dia seguinte haverá outra.
Congratulações a estes atletas diários. Aqueles que enfrentam todas essas adversidades para chegar ao seu destino. Somos realmente resistentes.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Depois...
Procrastinar, como é bom. Percebi que somos procrastinadores desde sempre. Aquelas crianças que quando nascem não choram, procrastinadoras. Devem pensar:”ah eu choro depois ”. Por falar no “depois”, que palavra dominadora. Deve ser uma das mais pronunciadas durante a vida.”Depois eu almoço,mãe”, “depois eu ligo”, “depois a gente conversa”,”depois eu limpo”. Os piores são aqueles que : “depois eu pago”,”depois eu tomo banho”,etc.E as que mais atrapalham a vida:”depois eu estudo”,”depois eu resolvo”.Essa última é assassina de tempo.
A palavra “depois ” deve causar algum prazer, como um vício. Deveria ser estudada mais a fundo pelos linguistas, quem sabe seja o “s” no final ou esse estranho “d ” no começo, não sei,depois eu penso nisso...depois não, depois sim... ela é tão poderosa que consegue aparecer nesse texto muitas vezes como um vício de linguagem incontrolável, depois,depois...
Muitas pessoas afirmam viver no passado; duvido. Delegam tanta coisa para o futuro, que pro passado não sobra nada. O problema é quando o futuro chega:” oi, está na hora”.Acabou-se tudo, o “depois” que causou tanto prazer agora é odiado, mas logo volta-se a amar o “depois”, ele tem essa característica misteriosa.
Essa crônica mesmo foi um pretexto para adiar o estudo do assunto da prova que vou ter amanhã. O depois está começando a ser odiado agora, então vou parando por aqui.Vou estudar.Depois a gente conversa mais.
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