sábado, 4 de outubro de 2014

O Misterioso Convite


    
     Era final de Setembro. As ruas estavam cobertas pela neve, a única coisa que se ouvia era o som do vento. Ela não queria ir, mas o convite fora bem enfático:” No antigo casarão da irmandade, às 18:00h. Não falte, assunto de elevada urgência”.
      “O que seria tão importante?”- Pensava consigo. Não se aproximava do casarão desde aqueles trágicos acontecimentos. Agora estava ali, caminhando em direção à antiga construção.
       “A porta está aberta.”- Preocupou-se.
    Entrou. Todas as luzes estavam apagadas. A escuridão tomava conta de todo o recinto. Nada podia ser ouvido, nem mesmo o som do vento que a pouco era ensurdecedor.
      “Olá.”- Nenhuma resposta.
    Um calafrio percorre todo o seu corpo. Estava sendo vigiada. Sente que vários olhos a observam. Tenta achar a porta, mas as pernas não obedecem. Alguém passa atrás de si. Tenta gritar, mas no lugar da voz só o medo consegue sair.
      De súbito, as luzes são acesas:
      - SURPRESA! PARABÉNS PRA VOCÊ...

domingo, 28 de setembro de 2014

Fim do Mundo


    


     Os olhos não desgrudavam da tela do Smartphone. Podia-se notar um sutil sorriso saindo dos cantos dos lábios. Se o mundo acabasse naquele momento ela não notaria.
     - Alice, o mundo está acabando!
     - Espera mãe, deixa eu enviar esta mensagem pro Caio.
     - Você não está entendendo? O mundo está acabando mesmo. O meteoro está perto, a temperatura subiu, tudo vai acabar.
     - Depois eu vou. Pode ir.
     - Mas... O mundo...
     - Depois mãe, eu já disse.
     O mundo acabou e, por ironia, ela não conseguiu enviar a mensagem.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sono Bom

     
     
      Quando o ar condicionado novo chegou na minha sala fui logo olhando o controle remoto. Antiga mania de descobrir as funções que determinado aparelho oferece. Logo um botão me chamou a atenção. Nele havia escrito “sono bom”. Que função seria essa? Com nome tão peculiar e sugestivo provavelmente seria algo inovador. Comecei a imaginar: deveria ser uma função integrada. Ao apertar o botão inicialmente as persianas se fechariam, as luzes teriam seu brilho reduzido e uma leve fragrância de camomila seria lançada pela sala. Em seguida a cadeira se reclinaria, mãos robóticas retirariam meus sapatos e um escalda pés surgiria de um compartimento do chão. “As Quatro Estações” de Vivaldi poderia ser escutada ao fundo.
      De volta desse esperançoso devaneio fui, na expectativa, apertar o botão e descobrir o que realmente fazia essa função. Para minha decepção a única coisa que aconteceu foi se apagarem as luzes do painel do ar condicionado. Procuro o manual e leio a esclarecedora descrição da “sono bom”:

Esta função proporciona um maior conforto térmico durante o sono. Ao acioná-la, a temperatura será ajustada, automaticamente, reduzindo a sensação de frio ou calor excessivos durante o sono. Todas as luzes do painel digital irão se apagar para reduzir a luminosidade do ambiente.”

      É, bem menos interessante do que eu imaginei, mas fica aqui a sugestão caso alguma empresa visionária se interesse. Fazer o quê. Pelo menos Vivaldi eu posso colocar para tocar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Aula de Desenho




Passo pela folha A4
Passeio pela A3.
Pego régua, lápis e esquadro
E desenho tudo outra vez.

Pelos ortogonais das minhas vistas
Tento deixar tudo no lugar.
Isométricas são minhas perspectivas
De poder acertar.

O centro foi encontrado
Não sei se o da terra também.
O polígono está correto
Mas esta escala, não está além?

Tudo agora está reto,
Calculado e proporcional.
As medidas não estão em metros
Mas a escala deixa tudo legal.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Conjugue




Eu fiz e fiz bem feito.
Tu fizeste e não teve jeito.
Ele fez bem concentrado.
Nós fizemos de bom grado.
Vós fizestes em visível alegria.
Eles fizeram, mas que agonia.

Verdade. Prova de conjugação verbal é mesmo uma caixinha de surpresas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Coisas de Formiga

         

     Ganho o corredor, passo pela copa onde o relógio está acabando de bater cinco horas. Atravesso a cozinha, vendo a Alzira a remexer em suas panelas, sem tomar conhecimento da minha existência. Desço a escada para o quintal e dou com um garotinho agachado junto ás poças d'água da chuva que caiu há pouco, entretido com umas formigas. Dirijo-me a ele, e ficamos conversando algum tempo.(*)
***
          - O que está fazendo? - pergunto ao garoto. 
          - Shhh! Silêncio ou elas irão embora. Elas não gostam de barulho. - repreende o menino.
          - Elas quem? 
          - As formigas, claro. 
          - Ah sim, claro. O que elas estão fazendo?
          - Tentei perguntar, mas não me falaram nada. Acho que estão formigando, mas não sei bem o que. 
          - Formigando?
          - É, coisas de formiga. 
          O garoto volta a observar as formigas, ignorando a minha presença ali. Volta a tentar entender aquele, que no seu mundo, considera um grande mistério.
 ***

(*) Primeiro parágrafo: Trecho do livro O menino no Espelho de Fernando Sabino.

Ilustração de Carlos Cavalcante.
  


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Mais Feliz!





Quero ver você feliz.

Mais feliz que origamista em papelaria.

Mais feliz que dona de casa numa loja em promoção das casas Bahia.

Mais feliz que pinto no lixo.

Mais feliz que um avarento ganhando desconto.

Mais feliz que formiga numa piscina de açúcar.

Mais feliz que aluno em feriado.

Mais feliz que mulher fazendo compras.

Mais feliz que criança ganhando brinquedo.

Mais feliz que pobre ganhando brinde.

Mais feliz que sapo na chuva.

Mais feliz do que qualquer outro.